Especialistas apontam a falência do modelo de privatização do setor de distribuição elétrica no Brasil e a falta de planejamento como determinantes para os apagões, como o último ocorrido na madrugada do dia 14/10, que afetou vários estados do país. O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) informou que, à 0h32, uma ocorrência no Sistema Interligado Nacional (SIN) provocou a interrupção de cerca de 10.000 megawatts (MW) de carga, afetando os quatro subsistemas: Sul, Sudeste/Centro-Oeste, Nordeste e Norte. Em nota, o ONS detalhou que a ocorrência teve início com um incêndio em um reator na Subestação de Bateias, no Paraná, desligando toda a subestação de 500 kilovolts (kV) e ocasionando a abertura da interligação entre as duas regiões. “No momento, a Região Sul exportava cerca de 5.000 MW para o Sudeste/Centro-Oeste”, informou o órgão. Falência do modelo de privatização De acordo com o engenheiro eletricista Íkaro Chaves, a deterioração da qualidade da prestação de serviço na distribuição de energia elétrica, como observada em São Paulo, evidencia a falência do modelo do setor elétrico brasileiro, baseado na privatização e na regulação estatal do setor. “Ano que vem, faz 30 anos que a primeira distribuidora foi privatizada, que foi a distribuidora do Espírito Santo. Já é tempo suficiente para a gente fazer uma avaliação desse modelo, se deu certo ou não. E eu acho que está mais do que provado que ele não tem funcionado”, destacou Chaves. “A questão principal aqui é que o modelo faliu. E por que o modelo faliu? Na verdade, porque é evidente: você está falando de um setor monopolista. Não é possível que a concorrência atue do ponto de vista de beneficiar o consumidor”, acrescentou. O engenheiro ressalta ainda que a regulação do setor, executada por uma agência reguladora — que tem como função defender o interesse público no modelo privatizado — também tem se mostrado falha. “O custo com mão de obra não pode ser incorporado à tarifa. Esse é um custo que tem de ser administrado pela empresa. E, pelo menos, a justificativa que a própria Aneel coloca é que isso visa a aumentar a eficiência.E como a concessionária vai aumentar a margem de lucro? Ela só pode aumentar reduzindo despesa. Ela vai reduzir a despesa no pessoal”, diz Chaves. “Esse modelo não tem funcionado. Vai sempre no sentido da precarização do trabalho. E as pessoas esquecem que a manutenção é feita necessariamente por pessoas. Então, a manutenção preventiva, como a troca dos equipamentos, limpeza de isoladores, com a verificação, com termografia, enfim, toda manutenção preventiva é feita por pessoas.” Falta de coordenação agrava impactos Para o professor do Departamento de Engenharia de Energia e Automação Elétrica da Escola Politécnica da USP, José Aquiles Baesso Grimoni, a demora na religação da rede elétrica — como observado na capital paulista, que ainda na manhã seguinte tinha localidades sem energia — está relacionada à falta de coordenação entre a concessionária Enel e a prefeitura. Segundo ele, o comitê de crise da cidade de São Paulo não funcionou. “À medida que a árvore cai e atinge a rede elétrica, pode ocasionar desligamento e aí você tem que retirar a árvore primeiro para poder fazer a recomposição da rede e energizar todas as casas.Faltou um pouco de coordenação, talvez o comitê de crise. É uma situação emergencial, então todos os envolvidos têm que sentar, conversar, planejar e agilizar a recomposição.” Para Grimoni, “o problema não é técnico. O problema é político e econômico.” Relembre os últimos apagões Antes do apagão elétrico registrado na madrugada desta terça-feira (14/10), provocado por um incêndio na Subestação de Energia de Bateias, no Paraná, o Brasil já vivenciou uma série de apagões nos últimos anos: Número de apagões aumentou no primeiro semestre de 2025 O número de blecautes no sistema elétrico brasileiro aumentou no primeiro semestre deste ano, em comparação com o mesmo período de 2024, segundo monitoramento do Ministério de Minas e Energia (MME). De janeiro a junho, foram registradas 22 ocorrências com cortes de pelo menos 100 MW e dez minutos de duração — totalizando 7.914 MW de carga interrompida. Isso representa quase o dobro dos 4.084 MW cortados nos seis primeiros meses de 2023, em 13 ocorrências, conforme dados do boletim mensal de monitoramento do sistema elétrico brasileiro. Com informações das agênciasFonte: FNU