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O encontro, que acontecerá no auditório Freitas Nobre, reunirá especialistas, parlamentares, pesquisadores e representações de trabalhadores do setor para discutir os impactos …

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O encontro, que acontecerá no auditório Freitas Nobre, reunirá especialistas, parlamentares, pesquisadores e representações de trabalhadores do setor para discutir os impactos …

Brasil: A transição energética sabotada

Num país com matriz elétrica limpa e barata, a energia é caríssima, a geração oprime comunidades e o risco de apagão persiste.
Causa: rentismo e interesses privados dominam, como diriam os clássicos do socialismo e o irreverente Belchior.

O legado de Lênin e Mao Tse-Tung

Há mais de um século, na Rússia revolucionária, Lênin defendia, no VIII Congresso dos Sovietes, em 1920, que:

“O socialismo significa os sovietes mais a eletricidade.”

A afirmação expressava a convicção de que, uma vez conquistado o poder político, era fundamental qualificar o projeto produtivo e as formas de vida que o proletariado buscava construir no socialismo. Tratava-se de:

  • Superar a herança feudal do regime czarista.
  • Resistir ao intervencionismo estrangeiro (EUA, Grã-Bretanha e França).
  • Enfrentar os contra-revolucionários internos.

Poucas décadas depois, Mao Tse-Tung conduziu a China a um processo similar: após ampla reforma agrária, a industrialização tornou-se condição essencial para o “Grande Salto Adiante”. Esse processo exigiu ampliar a oferta de energia elétrica, com mecanismos de controle, coordenação e investimentos estatais.

Transição energética no Brasil: oportunidades e dilemas

O materialismo histórico soviético e chinês oferece, guardadas as diferenças, elementos para refletir sobre os desafios contemporâneos do Brasil, especialmente no campo energético.

Emergência climática global

  • Pela primeira vez, em 2024, a temperatura média global elevou-se mais de 1,5ºC acima dos níveis pré-industriais.
  • O acúmulo de CO₂ na atmosfera, fruto da queima de combustíveis fósseis, tem efeitos que duram mais de mil anos.
  • EUA e União Europeia respondem por 41% das emissões acumuladas desde 1850.
  • A América Latina e Caribe são responsáveis por apenas 4,14%.

Diante disso, a transição energética surge como caminho para reduzir a dependência dos combustíveis fósseis e enfrentar o aquecimento global.

O Brasil e sua matriz energética

O Brasil possui uma matriz energética relativamente renovável comparada à média mundial, devido principalmente a:

  • Forte presença de hidrelétricas;
  • O etanol pós-Choque do Petróleo de 1973;
  • Grande potencial para solar, eólica e hidrogênio verde;
  • Abundância de minerais estratégicos.

Porém, há um impasse central: qual o papel do Estado diante dessa janela de oportunidades e quais serão os impactos políticos, econômicos e sociais dessa transição?

Privatização e interesses privados

O setor elétrico brasileiro — espinha dorsal da transição energética — foi majoritariamente privatizado:

  • Anos 1990: início com Fernando Henrique Cardoso.
  • Michel Temer: venda das últimas estatais de distribuição.
  • Jair Bolsonaro: privatização da Eletrobras.

Resultado: o Estado deixou de conduzir a transição energética. Quem lidera hoje são grandes grupos privados, guiados pelo lucro.

Falta de planejamento estratégico

Outro problema grave é a ausência de planejamento estatal:

  • Empresas do setor privado disputam espaço na matriz por mercado, e não por necessidades técnicas ou sociais.
  • Exemplo disso:
    • Expansão desordenada da geração distribuída de energia solar residencial.
    • Construção compulsória de termelétricas a gás natural, impulsionada pela privatização da Eletrobras.

Essas decisões criam barreiras para outras fontes e desconsideram um plano integrado de curto, médio e longo prazo.

Impactos sociais e ambientais

Relatos e denúncias mostram que o modelo atual é predatório para comunidades:

  • Pequenos agricultores enfrentam relações abusivas e pagamentos irrisórios.
  • Ocorrência de conflitos agrários e impactos à saúde.
  • O Estado legitima esses processos por omissão e falta de legislação específica.

Como Marx aponta em O 18 Brumário de Luís Bonaparte, as salvaguardas existentes são apenas instrumentos para perpetuar o domínio econômico.

Quem se beneficia da energia renovável?

Apesar dos volumosos subsídios públicos, a energia renovável:

  • É injetada no Sistema Interligado Nacional, mas vendida a grandes consumidores.
  • Atende principalmente exportação de produtos primários e data centers.
  • O aproveitamento futuro, como no caso do hidrogênio verde, ainda carece de viabilidade técnica e estratégia nacional.

A necessidade de uma visão estratégica

Para enfrentar o imperialismo, o avanço do fascismo e a dependência externa, o Brasil precisa:

  • Tornar-se polo industrial com forte investimento em ciência e tecnologia;
  • Fortalecer a indústria nacional;
  • Construir uma visão estratégica sólida, orientada pelo interesse público.

Sem isso, a transição energética servirá apenas para reproduzir desigualdades e beneficiar potências globais.

O chamado de Belchior

Como canta Belchior em Clamor no Deserto:

“Eh! Meus amigos
Um novo momento precisa chegar
Eu sei que é difícil começar tudo de novo
Mas eu quero tentar.”

O Brasil precisa aproveitar a janela de oportunidades da transição energética para reorientar sua economia, fortalecer sua soberania e melhorar a vida da população. Caso contrário, continuaremos reféns de um modelo excludente e dependente.

Fonte: outraspalavras.net
Cássio Cardoso Carvalho — Engenheiro eletricista e mestrando em energia pela UFABC

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